“A capacidade de encanto diante da beleza, seja ela qual for, tem como basilar catalisador a noção e consciência da imperfeição intrínseca aos avessos do que é belo”.
Desde os primórdios da humanidade o homem sente-se incomodado
com essa realidade que lhe parece inerente, e que o potencializou a enxergar
seu habitat como portador de defeitos de fabricação também.
Não foi a toa que Deus passou a ser questionado acerca de sua
própria perfeição, beleza e poder. Não foram poucos os que ousaram colocar em
xeque os atributos divinos devido à observação de que tanto o mundo, como as
pessoas, lidam desde sempre com o fato de que a criação não é um projeto
perfeito.
Ainda nos dias atuais este questionamento não perdeu força:
como que um Deus perfeito desenvolveria um projeto com tantas imperfeições?
Porém é exatamente da força desse questionamento que podem
surgir as percepções mais belas dessa ambivalência divina.
Parece ser razoável perceber perfeição em um Deus que abre
mão do que é exato, adequado, irretocável, para ceder espaço e livre consciência
para o que seria “eternamente” inacabado e infinitamente aprendiz como é o
homem.
Além disso, é plausível notar que quanto mais lidamos com a
realidade da imperfeição, mais aguçamos nosso senso de beleza.
O imperfeito aperfeiçoa os olhos para contemplarmos beleza
onde não enxergaríamos sua totalidade, caso nos fosse negado tal tirocínio. Nem
saberíamos o que é belo se não contemplássemos seu avesso.

Pe. Fabio de Mello foi muito feliz quando disse que, “o não ser está no avesso do ser, assim como o tecido só é tecido
porque há um avesso que o nega, não sendo outro, mas completando-o. O que não
sou também é uma forma de ser. Eu sou eu e meus avessos”.
O caminho para a construção do SER
consiste nesse respeito e acolhimento aos seus próprios avessos. Não os negue,
não se negue, não renuncie a vida que pulsa dentro de você.